segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Inadiável questionamento de Isabella

- Como é por dentro outra pessoa?

- As vezes cheio, as vezes vazio, as vezes quente, as vezes frio...

mas a maioria, ao que parece, é só por fora!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

enquanto alcool, enquanto pés, em quantos pés

meia milha, velha trilha
canta pneu roçando o vento
empina poeira e escorrega macio o fresco
na lama, lamacenta guerrilha de quatro pés
[em roda]

gira um segundo e vela
velha trilha corrediça, passadiça, quebradiça terra
aloma a noite estrelada maravilha empoeirada
manhanita, avermelhada tenso e forte
feito dor na nuca, dor de culpa e novelos [nós]

tenta, amor!

tenta fazer outro passo que este não é nosso!
alcoolicos jejuns, joelhos atônitos
em terra o pó
em terra a pedra cravante

eu te daria o céu meu bem
e todas as estrelas também
e toda a melodia afinada que eu não posso ser
por hora

sábado, 13 de novembro de 2010

Manuela

Manuela foi e não foi volta pra casa
pra arregar o almoço e saciar o umbigo
que pálido e sujo cola na costela
que enclausura as lombrigas
num retiro casto de leite e gordura

Manuela amarela corre descalça nas vielas da vida
saltita feito mula no lixo da feira do sábado de manhã
bem dizendo a dádiva divina que lhe faz correr

anda Manuela pelo meio do mundo de uma rua só
colhendo memórias e semeando lembranças
nos outros e outros que vêem Manuela só sorriso passar

Manuela não calça patrão algum
ela não pede nada, não mendiga, nem cheira o suvaco alheio

Manuela tem o dom não terreno, coisa super estranha
de gente de fora da terra, de gente de fora do mundo
de gente de outro lugar

Manuela cativa tão forte, tão rápido
gente que nunca viu Manuela na vida
por pura identificação das almas
coisas dos olhos que ninguém entende [é coisa só sentida]

Manuela não sabe contar mais que cem carneirinhos pulando a cerca
nem sabe se cerca é com "C" ou com "S"

mas Manuela sabe o que é perto e o que divide
sabe o que separa e o que junta
e sabe da impossibilidade da transferência de sentimentos por osmose

Manuela é menina esperta, menina sabida
que sabe mais coisa da vida do que todo mundo dessa sala
todo o mundo desse mundo
sabe mais coisa que todas as estrelas do universo

porque Manuela que é Manuela
já desistiu de contar e saber de tudo
pra descobrir que mais importante é o que se sente
das pontas dos dedos ao fundo da alma...

Perante os parênteses

nada vem a boca, não sei se é cheio ou vazio
não sei se é fartura ou se é falta
só que me falta palavra
seja coisa dita, coisa pensada

não tem a ver com coisa alguma
não tem a ver com dor, nem carne
não tem de ambas as partes preocupação ou receio

da parte que me cabe, das duas, das três e meia partes de mim
rogo por ter pressa, por ter ansia, por ter medo
de viver e morrer assim, sem poder ser ímpar, de ser par eterno

nas cores e tons de cada manhã, cada som, cada bronze
feito memória recente e memória dormida
na missão de lembrar as mazelas da vida
de lembrar pormenores de fagulhas felizes

[queima e arde em gozo um estalo refrescante de saudosa sinfonia a alma]

caduquices existenciais...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

coisa de menina | meu amor primeiro

mesmo verso impresso feito a hidrocor
em papel de carta e envelope igual
mesmo tom pastel, sem tirar nem pôr
carta com sabor, morango [artificial]

corre e põe a carta sobre a mesa
e se afasta faceira a espreita do que vem te apanhar
arregala o olho e aperta o peito
como na espera de se espalhar

[se jogar leve e solta para um beijo mexicano
para um olhar de aprovação de seu príncipe de aparelho]


tenso...

Poema encardido

a forma como me tomas, que me enolve inteira
carícia sorrateira, afago na alma
faz do corpo um, faz do meu e teu 'dois'
faz dias lindos das manhãs ainda escuras
despindo a noite nua de luar cativante
de olhar que ilumina

eu gosto do jeito dengoso que te cabe em meus braços
feito peça de encaixe, feito coisa partida e colada de novo
eu gosto do gosto, do gosto eu gosto
do sabor da goiaba madura, do desjejum [de você]

eu gosto da preguiça rasteira de toda saudade que teima
de toda angústia e todo sentimento teimoso
mas te envolvo aos poucos em meus braços
os laços, os atos, os feitos e ditos
do tempo que nunca se acaba, nunca se apaga, nunca dorme
e assim, um dia, eu sei
sem pressa, ão de partir estas dores...

domingo, 3 de outubro de 2010

Achados e perdidos

Faz um tempo
faz um bom tempo
faz um tempo bom aqui dentro
e dentro fica e dentro embala
toda a boa coisa, a boa nova
das velhas palavras

eu matutava o pó
sozinho e quietinho
na mansidão alvoroçada de dias iguais
de dias a mais e de dor [de dias mortais e com pressa]
eu mesurava os esforços da alma
balançeava cenas, media, comedia, emoldurava
títere [de cordas de aço]

tudo o que eu quero cabe
cabe e sobra num pedaço de um canto de papel de uma nota
cabe na fina ponta de um lápis
e queima feito palha na panela
que no meu peito explode feito fogos de artifícios

mas...como tudo que se acende se assenta
hoje penso em te entregar meu nó, meu pó, meu jeito
e andar duro e torto até os pés de vossa casa
apresentar a mazela e desgraça de desgarrada criatura
mendigar uma cura, um carinho, uma reza
pra fermentar minha fé, pra acalmar meu juizo
e trazer paz ao abrigo de um coração tensionado
pagar meus pecados bandidos com couro, com sal e água
e te entregar meus pés, meu chão, minhas costas
[como em prova de não temer mais nada
mais nada temo...]

mas que exiges muito desse coração tão recente
inda me questiono, remoendo momentos, momentos...
momentos...
por que fizestes brisas e cabelos?
por que fizestes perfumes e peles?
pra que fizestes dos olhos sorrisos?
e das palavras âncoras que penetram o coração profundamente....

se querías provas e defuntos resistentes...
tem paciencia comigo, que ainda não sou forte...
sou apenas louco de amor e juízo
por uma coisa e outra
uma aqui, outra acolá

e vivo de pedido em pedido
de perdão em perdão
pois culpado sou de tudo
de absolutamente tudo sou culpado

de te amar sobre todas as coisas
e de igual amar...

amar...